domingo, 11 de maio de 2014

Cata-se

Melhor passar a vez
Que não sei mais escrever.
Os analfabetos, os encarcerados,
esses têm mais a dizer.

Os cegos, surdos, cadeirantes,
As prostitutas e as amantes
somos neles os poetas retirantes

E o somos nos que acabam de morrer
por ódio, descaso, por aqueles que
tagarelavam ...
sem nada a dizer

e coroaram suas ideias medíocres
vomitando garganta abaixo de quem
(por azar)
nasceu para não-viver.

Nasceu escravo, humilhou-se escravo, amou escravos
não reconheceu-se escravo, mas talvez
talvez ainda poderá catar no chão
a poesia

e escrever mentalmente
uma carta de alforria.

Melhor não ser minha vez.
Que venha a próxima, por favor.

terça-feira, 22 de abril de 2014

17 de abril

A Pedagogia dos Aços

(Pedro Tierra)

Candelária,
Carandirú,
Corumbiara,
Eldorado dos Carajas

A pedagogia do aços
golpeia no corpo
essa atroz geografia

Há cem anos
Canudos,
Contestado
Caldeirão

A pedagogia dos aços
golpeia no corpo
essa atroz geografia ...

Há uma nação de homens
excluídos da nação.
Há uma nação de homens
excluídos da vida.
Há uma nação de homens
calados,
excluídos de toda palavra.
Há uma nação de homens
combatendo depois das cercas.
Há uma nação de homens
sem rosto,
soterrado na lama,
sem nome
soterrado pelo silêncio.

Eles rondam o arame
das cercas
alumiados pela fogueira
dos acampamentos.

Eles rondam o muro das leis
e ataram no peito
uma bomba que pulsa:
o sonho da terra livre.

O sonho vale uma vida?
Não sei. Mas aprendi
da escassa vida que gastei:
a morte não sonha.

A vida vale tão pouco
do lado de fora da cerca ...

A terra vale um sonho?
A terra vale infinitas
reservas de crueldade,
do lado de dentro da cerca.

Hoje, o silêncio
pesa como os olhos de uma criança
depois da fuzilaria.

Candelária,
Carandirú,
Corumbiara,
Eldorado dos Carajás não cabem
na frágil vasilha das palavras

Se calarmos,
as pedras gritarão...

terça-feira, 8 de abril de 2014

Cordel das boas-vindas

Vem, venha
Vai, voa...
Mas volte.
Que poesia é sempre boa.


::apresentando agora Luna Vitrolira, pernambuca do grupo São Saruê:


Aos prazeres

Todo pôr do sol traz teu cheiro...
faz meu peito de amante sorrir...
Eu sempre vou me despedir
do mundo inteiro primeiro
pra depois ganhar beijos teus
e sem querer dizer adeus
fartar-me em teu curto abraço.
O meu prazer é clandestino,
mas quero dizer-te menino
que quando olhas, me desfaço.

Eu tenho alguns poucos receios,
pois meu coração não é casto
e, por isto, às vezes, me afasto:
por respeito ao amor alheio,
mas te espio discretamente
e sempre disfarçadamente
o peito bate descompassado.
E aí aparece a razão
Pra controlar o coração,
dizendo que estais no passado.

eu não me furto a natureza,
mas calo frente ao meu impulso
- pois que se descontrola o pulso -
eu não resisto a tua beleza.
Eu adoro te ver sorrindo
e ainda continuo fingindo
que os meus desejos se castram,
mas mesmo que se calem os lábios
os nossos sentidos são sábios
os olhares sempre se falam.

A tua presença é perigosa
vejo que gostas de incitar
com palavra “maliciosa”,
Mas adoro teu provocar
e sem pressa e com paciência
sou obrigada a pôr reticência
e admitir a verdade crua:
que o pensamento vai aos ares
me desconcertam teus olhares;
sou réu confesso e presa tua.

tudo que começa tem fim
- disso tem-se consciência -
por isso sempre digo sim
pra ver o que quero em essência.
Nem tudo nasce para o eterno,
o fugaz é belo e terno.
Meu carinho tem sinceridade.
Preto, eu te deixo marcado
nesse universo ritmado
oferecendo honestidade.

Não hei de temer arrodeio
muito menos temer saudades.
Rio... pelo efêmero passeio
e por minhas ébrias vontades.
Sem medo de parecer louca
canto amor até ficar rouca
eu danço pela tempestade,
porque se ignoro o desejo
morre no tempo nosso beijo
só porque não se fez verdade.

Não tenho medo nem se espante
é só encanto, admiração
e carinho d’um ser errante
que te faz versos com paixão.
Todo amor é livre e sagrado
não deve ser sentenciado,
pois o pecado não condena,
por isso quero lhe dizer:
se você faz acontecer
faço tudo valer a pena.



sábado, 17 de agosto de 2013

tarde na montanha


Quando pra você ganhar, não precisa disputar, nada é mais uma ameaça. Seus instintos egoístas de nada mais servem. O medo já não lhe é mais útil, você não precisa escapar, ou enfrentar. Acabou o pesadelo, pode acordar. Pode sorrir, pode espreguiçar, pode sair correndo, brincar, cantar. Nada de vergonha, nada de errado, pode sim! E quando você menos esperar, não só pode, como já está.


segunda-feira, 1 de julho de 2013

Angústia

Admito: nunca sei exatamente o que se passa. A linguagem humana às vezes confunde mais que esclarece...o silêncio também. Tudo pode ser um campo repleto de dúvidas (ou pode ser um espaço apenas - sem respostas, sem perguntas).

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Encanto e Espanto

Hoje poderia ter sido todo dia. Dia de repetir, na mesma esquina: "vinte e quatro pregador, dois real"...
não por delírio, mas por ter que viver.


Hoje andamos em fluxo, fluxo que se direciona todos os dias, nos mesmos horários, à prisão de um recipiente. Fluxo que não desagua, ignora as águas da Guanabara, e apenas desembarca do outro lado, como sempre.

Mas hoje simplesmente percebemos tudo com espanto. E percebemos, com encanto, que a noite é o tempo mais humano de um homem diurno, é tempo livre, em que vale tudo o que não teria valor.
 

Em que vale a poesia
Fazer amor contigo
não é espelhar teu corpo nu
no vítreo do meu espaço
não é sentir-me possuída
ou possuir-te. 
É ir buscar-te
ao abismo de milênios de existência
e trazer-te livre.*

Em que valem vozes cantando juntas

Será que é tempo que lhe falta pra perceber? Será que temos esse tempo pra perder? E quem quer saber? A vida é tão rara, tão rara.**
 
Só por isso, humildemente, desejo o hoje compartilhar.




(em companhia de Cathe Lira, Victor Guedes e Celso Eugênio, pelas pequenas viagens do cotidiano niteroiense até as noites cariocas.)



* Posse Intemporal, de Manuela Amaral 
** Paciência, de Lenine

domingo, 26 de maio de 2013

Depois de Pernambuco

Quero viver pelo sorriso inexplicável da nordestina
que se orgulha do menino e da menina
que diz "a vida é isso... é luta constante"
e que sorri mais uma vez, e outra vez acrescenta
Amor
ao meu ser já amante

Quero viver pelo sotaque mole oferecendo
"é de bom coração"... por aquele sorriso sereno
comentando como hoje foi baixo o movimento
e pelas pegadas formando na areia um caminho
debaixo de Sol e de Lua, contra o vento.

Quero viver pelo coração que toca
tom de alfaia, bum de surdo. Que bate sempre
mas só toca em roda
coração de ciranda, virada de mundo

Nessa roda minh'alma se com-partilha
dentro dos seres e da gente, que levam e deixam saudade
mas pedacinhos não ficam perdidos, e nem
a alma fica metade
eles dançam quando se encontram
sua soma é liberdade

Quero viver
Quero viver porque podemos ser.
Mais que gente distante, mais que frações de classe
Juntos, podemos ser
Humanidade

quinta-feira, 4 de abril de 2013

sine imperium

Não idealize.
Não julgue,
Não permita
Qualquer tipo de proibição
Qualquer sonho em reprodução
aniquile, e prossiga.

Não reforme,
Não repare.
Destrua!
Flagele, derrame o sangue podre
Toda estupidez
desconstrua.

Porém, não convalesça
Nem se obrigue.
Adoeça.
Mas resista e se contradiga até a cura
E mais nenhuma ordem
reconheça.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Cinzas

No contexto, o carnaval
Um pretexto, a novidade
De novo, de velho, dilacero
Meu peito, eu dilacero, dilacero...

Sem dó, hasta el pozo
Dilacerando, morrendo, gritando
Sangrando, rasgando
Escorre em meu rosto

O pretexto, a novidade
A velha, a cega, a coisa
que eu quero que morra
Sem saber, sem sofrer
Apenas vá para longe daqui....

Pra longe do meu peito.

Adeus, provocação
Sem mais nenhuma alternativa
Sem Guerra
Dilaceremo-nos
Juntas
Ligadas pela condição
de mulher.

Expulsemo-nos da guerra.
Vomitemos
na cara dele. Escorra.

Agora morra.
Em paz.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Detalhe

Poucas palavras.
Venha, benvindo, voe
Som. Sonhe, seja
Silêncio, só. E somente
Sinta.

domingo, 29 de janeiro de 2012



Mergulhe e abra os braços
Como se estivesse a voar







Não há voo mais pleno, mais profundo.
Mergulho.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Amanheceu solidão


Leve como uma pluma
Breve como uma cena
O canto beija a sereia
E passeia. E me condena.

Assim os gemidos choram
Os olhos se apagam, os corpos se apertam
Escuridão. O sonho nostálgico do momento
Em que se deram as mãos

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Ossentir

Um pássaro sobrevoa este momento.

Enquanto isso se equilibra
numa tênue linha, ao vento.

Quase se deixa cair, quase se entrega ao mar
Quase anoitece, quase canta
A quem não quer abandonar

Da tempestade, foge veloz
Ave ingênua, assim como nós
Descobre, na busca pela Paz,
Que voando não se chega ao cais

Ó tênue linha,
Tu és firme, insensível ao peso...
Mas somente em ti sou capaz de criar
A beleza do pássaro indefeso