domingo, 17 de maio de 2015
novaidade
essepê
esse ipê
esse morro
esse som de pernambuco
meu ouvido já caduco
minha boca ainda mole
ainda mal sussura no que acredita
ainda engole...
senhorita, moça
flor, amor,
qualquer palavra tosca
entra em rima
entra em riso
não sublima
pois não é preciso
porque é só de saber
e apenas já tocou
e pra manifestar vaza nova em tudo junto:
timbre, textura, odor-sabor...
coisa estranha e simples essa vida,
quanto tanto já passou! (e não foi nada)
quanto desse nada que vez em quando não passa!
pois cai no lago medroso do "se repete"
e nos faz querer fugir, como se fosse monstruoso isso
que na verdade é só ciclo (e nos inverte)
transmutantes, seguimos em espiral
que encantemos mesmo, tudo isso
nunca será igual
ao mesmo tempo sempre parecerá
o amor
tão banal
mas seja, ora, dê a língua!
que nem quando a criança birra
em se mostrar indecente, inteligente
sendo boba em encontrar novos utilitários
pra tudo que já foi catalogado
como existente.
e é assim
que inventamos novas brincadeiras pras cidades rivais
que usamos palavras parecidas pra descobrir
como desfazer nós, distância entre os locais
como chegar e ir
e cheirar e rir
cada vez mais lindo, mais cheio, mais último e primeiro...
cada vez, como nunca mais
sexta-feira, 8 de maio de 2015
Anjos Mulheres - VI
Por Maria Teresa Horta
As mulheres voam
como os anjos
Com as suas asas feitas
de cristal de rocha da memória
Disponiveis
para voar
soltas...
Primeiro
lentamente uma por uma
Depois,
iguais aos pássaros
fundas...
Nadando,
juntas
Secreta a rasar o
chão
a rasar a fenda
da lua
no menstruo
por entre a fenda das pernas
Às vezes é o aço
que se prende
na luz
A dobrarmos o espaço?
Bruxas
pomos asas em vassouras
de vento
E voamos
Como as asas
lhe cresciam nas coxas
diziam dela
que era um anjo do mar
Rondo alto,
postas em nudez de ombros
e pernas
perseguindo,
pelos espaços,
lunares
da menstruação
e corpo desavindo
Não somos violência
mas o voo
quando nadamos
de costas pelo vento
até à foz do tempo
no oceano denso
da nossa própria voz
Sabemos distinguir
a dormir
os anjos das rosas voadoras
pelo tacto?
Somos os anjos
do destino
com a alma
pelo avesso
do útero
Voamos a lua
menstruadas
Os homens gritam
- são as bruxas
As mulheres pensam
- são os anjos
As crianças dizem
- são as fadas
Fadas?
filigrama cintilante
de asas volteando
no fundo da vagina
Nadamos?
De costas,
no espaço deste século
Mudar o rumo
e as pernas mais ao
fundo
portas por trás
dobradas pelos rins
Abrindo o ar
com o corpo num só golpe
Soltas,
voando
até chegar ao fim
Dizem-nos
que nos limitemos ao espaço
Mas nós voamos
também
debaixo de água
Nós somos os anjos
deste tempo
Astronautas,
voando na memória
nas galáxias do vento...
Temos um pacto
com aquilo que
voa
- as aves
da poesia
- os anjos
do sexo
- o orgasmo
dos sonhos
Não há nada
que a nossa voz não abra
Nós somos as bruxas da palavra.
quinta-feira, 16 de abril de 2015
Alma selvagem
Eu fui muito longe...passando batida por uma floresta. (Era floresta mesmo?)
Sei que há uma foz. Não sei muito sobre ela, pois seus vestígios são apenas líquidos que vazam por uma pequena fenda que se abriu em minhas veias. Eles gotejam: salgada lágrima, ferroso sangue, agridoce gozo. Mas pra onde eles vão? Cadê o curso desse rio? O vazamento só aparece em alguns momentos, mais frequentes ultimamente. Pode ser ao ouvir o gemido da sanfona em Cajuína, ou o timbre perfeito das vozes em coro dos doces bárbaros. Pode ser ao ver o Sol correndo atrás das árvores enquanto o ônibus se movimenta, pode ser o olhar fundo numa íris marrom cintilante. Poderia ser a cada segundo, por cada buraco, cada pequeno poro, mas o corpo arma barreiras de contenção pra que ninguém perceba minha alma chorando. Sim, é ela que diz: "Você foi muito longe. Venha logo me abraçar". Ela me chama de volta à floresta, e dessa vez eu quero parar lá. Aqui. E ao resto do mundo que tanto reclama, só posso ter mais a dar quando todo esse ciclo das águas for curado, e a foz puder jorrar.
Sei que há uma foz. Não sei muito sobre ela, pois seus vestígios são apenas líquidos que vazam por uma pequena fenda que se abriu em minhas veias. Eles gotejam: salgada lágrima, ferroso sangue, agridoce gozo. Mas pra onde eles vão? Cadê o curso desse rio? O vazamento só aparece em alguns momentos, mais frequentes ultimamente. Pode ser ao ouvir o gemido da sanfona em Cajuína, ou o timbre perfeito das vozes em coro dos doces bárbaros. Pode ser ao ver o Sol correndo atrás das árvores enquanto o ônibus se movimenta, pode ser o olhar fundo numa íris marrom cintilante. Poderia ser a cada segundo, por cada buraco, cada pequeno poro, mas o corpo arma barreiras de contenção pra que ninguém perceba minha alma chorando. Sim, é ela que diz: "Você foi muito longe. Venha logo me abraçar". Ela me chama de volta à floresta, e dessa vez eu quero parar lá. Aqui. E ao resto do mundo que tanto reclama, só posso ter mais a dar quando todo esse ciclo das águas for curado, e a foz puder jorrar.
segunda-feira, 16 de março de 2015
Genuínos
Do que mais pele tem na flor?
Do que mais reto tem nas asas?
Nos seus instantes, nem a cor
lhe sobra, nada
É só suspiro, inalação
do seu ardor, é só vapor
Eu viro água.
Ao mesmo tempo, é presença
É carnal na totalidade
imensa, profunda, e sem peso
Somos só, e tanto
infinidade
Abro os poros, enchamo
Te chamo, te amo
mas saem urros, gemidos
e entram mais.
Cai a luz.
Genuínos animais
Do que mais reto tem nas asas?
Nos seus instantes, nem a cor
lhe sobra, nada
É só suspiro, inalação
do seu ardor, é só vapor
Eu viro água.
Ao mesmo tempo, é presença
É carnal na totalidade
imensa, profunda, e sem peso
Somos só, e tanto
infinidade
Abro os poros, enchamo
Te chamo, te amo
mas saem urros, gemidos
e entram mais.
Cai a luz.
Genuínos animais
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015
L
a lua que é de lua
não tem hora certa pra mudar
de fase
não precisa de sol ou planetas
que cubram/descubram suas metades
ela circula na imensidão negra
- ao encontro de certas gravidades
que sangram, giram, dançam, gozam
enquanto eles pensam ser só amizade
no coito de crateras
no amor entre duas esferas
as luas são de luas
e ainda amanhecerão nuas
nem que o dia as apague
não tem hora certa pra mudar
de fase
não precisa de sol ou planetas
que cubram/descubram suas metades
ela circula na imensidão negra
- ao encontro de certas gravidades
que sangram, giram, dançam, gozam
enquanto eles pensam ser só amizade
no coito de crateras
no amor entre duas esferas
as luas são de luas
e ainda amanhecerão nuas
nem que o dia as apague
sábado, 27 de dezembro de 2014
Presente
Antigamente, até a virada do século, aquele senhor dando autógrafos podia ter todos os netinhos do mundo. Era só sorrir a uma criança e falar: "Faz de conta que eu sou seu vô". E ele eras.
ERAS (Manoel de Barros)
Antes a gente falava: faz de conta que
este sapo é pedra.
E o sapo eras.
Faz de conta que o menino é um tatu
E o menino eras um tatu.
A gente agora parou de fazer comunhão de
pessoas com bicho, de entes com coisas.
A gente hoje faz imagens.
Tipo assim:
Encostado na Porta da Tarde estava um
caramujo.
Estavas um caramujo – disse o menino
Porque a Tarde é oca e não pode ter porta.
A porta eras.
Então é tudo faz de conta como antes?
Uma das netinhas eras fada, escorregava no arco-íris, viajava pelos planetas desvendando mistérios e tinha um cavalo alado, dentre outras coisas. Teve até um dia que aprendeu a dirigir submarinos e seu pai eras subtaxista. Fazia de conta que a rede eras sua canoa, e os cachorros; tubarões. "Cada um com seu cada um", ela diria; e ele completaria: "Quem não tem ferramentas de pensar, inventa."
A MENINA AVOADA (Manoel de Barros)
Foi na fazenda de meu pai antigamente.
Eu teria dois anos; meu irmão, nove.
Meu irmão pregava no caixote duas rodas de lata de
goiabada.
A gente ia viajar.
As rodas ficavam cambaias debaixo do caixote:
Uma olhava para a outra.
Na hora de caminhar as rodas se abriam para o lado
de fora.
De forma que o carro se arrastava no chão.
Eu ia pousada dentro do caixote com as perninhas
encolhidas.
Imitava estar viajando.
Meu irmão puxava o caixote por uma corda de embira.
Mas o carro era diz-que puxado por dois bois.
Eu comandava os bois:
— Puxa, Maravilha!
— Avança, Redomão!
Meu irmão falava que eu tomasse cuidado porque
Redomão era coiceiro.
As cigarras derretiam a tarde com seus cantos.
Meu irmão desejava alcançar logo a cidade —
Porque ele tinha uma namorada lá.
A namorada do meu irmão dava febre no corpo dele.
Isso ele contava.
No caminho, antes, a gente precisava de atravessar um
rio inventado.
Na travessia o carro afundou e os bois morreram afogados.
Eu não morri porque o rio era inventado.
Sempre a gente só chegava no fim do quintal.
E meu irmão nunca via a namorada dele —
Que diz-que dava febre em seu corpo.
A diferença é que ela não sabia como era ter irmão. Mas logo depois saberia, por ironia ou não.
O tempo passou, o avô faz-de-conta e a menina nunca mais se viram. Mas ainda havia algo de comum naquele mesmo gosto por palavras. Naquele estranho prazer em retorcer as letras, subvertê-las e poder dizer então que é possível mudar tudo isso que aí está. Que, afinal de contas, podemos voar. Enfim, ela redescobriu: olha lá! Os versos que sua amiga recitou eram daquele seu antigo avô!
APANHADOR DE DESPERDÍCIOS (Manoel de Barros)
Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
Ela gostava de escrever, mas não queria mais ser o que optou quando cresceu. Queria ouvir, mais do que falar. Pois "só o silêncio faz rumor no voo das borboletas". Queria se metamorfosear.
BORBOLETAS (Manoel de Barros)
Borboletas me convidaram a elas.
O privilégio insetal de ser uma borboleta me atraiu.
Por certo eu iria ter uma visão diferente dos homens
e das coisas.
Eu imaginava que o mundo visto de uma borboleta
—Seria, com certeza, um mundo livre aos poemas.
Daquele ponto de vista:
Vi que as árvores são mais competentes em auroras
do que os homens.
Vi que as tardes são mais aproveitadas pelas garças
do que pelos homens.
Vi que as águas têm mais qualidade para a paz do
que os homens.
Vi que as andorinhas sabem mais das chuvas do que
os cientistas.
Poderia narrar muitas coisas ainda que pude ver do
ponto de vista de uma borboleta.
Ali até o meu fascínio era azul.
PALAVRAS (Manoel de Barros)
Palavra dentro da qual estou há milhões
de anos é arvore.
Pedra também.
Eu tenho precedências para pedra.
Pássaro também.
Não posso ver nenhuma dessas palavras que
não leve um susto.
Andarilho também.
Não posso ver a palavra andarilho que
eu não tenha vontade de dormir debaixo
de uma árvore.
Que eu não tenha vontade de olhar com
espanto, de novo, aquele homem do saco
a passar como um rei de andrajos nos
arruados de minha aldeia.
E tem mais uma: as andorinhas,
pelo que sei, consideram os andarilhos
como árvore.
Enfim, o poeta-avô bateu asas e avoou. Virou passarinho (como ele mesmo disse de Bernardo). À menina avoada, restou todo amor. E, dos três inventos do velhinho, teve um que ela mais se afeiçoou: o fazedor de amanhecer.
O FAZEDOR DE AMANHECER (Manoel de Barros)
Sou leso em tratagens com máquina.
Tenho desapetite para inventar coisas
prestáveis.
Em toda a minha vida só engenhei
3 máquinas
Como sejam:
Uma pequena manivela para pegar no sono
Um fazedor de amanhecer
para usamentos de poetas
E um platinado de mandioca para o
fordeco de meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias
automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria
das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo.
E a glória entronizou-se para sempre
em minha existência.
Bom, sono ela já tem demais, e o platinado foi para o irmão dele, tantos anos atrás... Então foi o fazedor de amanhecer, com um autógrafo, que sua netinha-faz-de-conta pegou. Só que depois, numa forte chuva, ele molhou... as páginas enrugadas, as letras interrompidas, mas ele nela continua vivo, e tudo continua dito.
Se Manoel em alguma energia puder ler essa meia-narrativa, agora assim eu a terminaria:
vô, sou grata.
*poemas retirados dos livros "O fazedor de amanhecer", "Exercícios de ser criança", "Ensaios fotográficos - 2ª parte" e "Poesia completa (2013)"
ERAS (Manoel de Barros)
Antes a gente falava: faz de conta que
este sapo é pedra.
E o sapo eras.
Faz de conta que o menino é um tatu
E o menino eras um tatu.
A gente agora parou de fazer comunhão de
pessoas com bicho, de entes com coisas.
A gente hoje faz imagens.
Tipo assim:
Encostado na Porta da Tarde estava um
caramujo.
Estavas um caramujo – disse o menino
Porque a Tarde é oca e não pode ter porta.
A porta eras.
Então é tudo faz de conta como antes?
Uma das netinhas eras fada, escorregava no arco-íris, viajava pelos planetas desvendando mistérios e tinha um cavalo alado, dentre outras coisas. Teve até um dia que aprendeu a dirigir submarinos e seu pai eras subtaxista. Fazia de conta que a rede eras sua canoa, e os cachorros; tubarões. "Cada um com seu cada um", ela diria; e ele completaria: "Quem não tem ferramentas de pensar, inventa."
A MENINA AVOADA (Manoel de Barros)
Foi na fazenda de meu pai antigamente.
Eu teria dois anos; meu irmão, nove.
Meu irmão pregava no caixote duas rodas de lata de
goiabada.
A gente ia viajar.
As rodas ficavam cambaias debaixo do caixote:
Uma olhava para a outra.
Na hora de caminhar as rodas se abriam para o lado
de fora.
De forma que o carro se arrastava no chão.
Eu ia pousada dentro do caixote com as perninhas
encolhidas.
Imitava estar viajando.
Meu irmão puxava o caixote por uma corda de embira.
Mas o carro era diz-que puxado por dois bois.
Eu comandava os bois:
— Puxa, Maravilha!
— Avança, Redomão!
Meu irmão falava que eu tomasse cuidado porque
Redomão era coiceiro.
As cigarras derretiam a tarde com seus cantos.
Meu irmão desejava alcançar logo a cidade —
Porque ele tinha uma namorada lá.
A namorada do meu irmão dava febre no corpo dele.
Isso ele contava.
No caminho, antes, a gente precisava de atravessar um
rio inventado.
Na travessia o carro afundou e os bois morreram afogados.
Eu não morri porque o rio era inventado.
Sempre a gente só chegava no fim do quintal.
E meu irmão nunca via a namorada dele —
Que diz-que dava febre em seu corpo.
A diferença é que ela não sabia como era ter irmão. Mas logo depois saberia, por ironia ou não.
O tempo passou, o avô faz-de-conta e a menina nunca mais se viram. Mas ainda havia algo de comum naquele mesmo gosto por palavras. Naquele estranho prazer em retorcer as letras, subvertê-las e poder dizer então que é possível mudar tudo isso que aí está. Que, afinal de contas, podemos voar. Enfim, ela redescobriu: olha lá! Os versos que sua amiga recitou eram daquele seu antigo avô!
APANHADOR DE DESPERDÍCIOS (Manoel de Barros)
Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
Ela gostava de escrever, mas não queria mais ser o que optou quando cresceu. Queria ouvir, mais do que falar. Pois "só o silêncio faz rumor no voo das borboletas". Queria se metamorfosear.
BORBOLETAS (Manoel de Barros)
Borboletas me convidaram a elas.
O privilégio insetal de ser uma borboleta me atraiu.
Por certo eu iria ter uma visão diferente dos homens
e das coisas.
Eu imaginava que o mundo visto de uma borboleta
—Seria, com certeza, um mundo livre aos poemas.
Daquele ponto de vista:
Vi que as árvores são mais competentes em auroras
do que os homens.
Vi que as tardes são mais aproveitadas pelas garças
do que pelos homens.
Vi que as águas têm mais qualidade para a paz do
que os homens.
Vi que as andorinhas sabem mais das chuvas do que
os cientistas.
Poderia narrar muitas coisas ainda que pude ver do
ponto de vista de uma borboleta.
Ali até o meu fascínio era azul.
E as palavras, como sempre, voltavam a lhes acompanhar. Até suas preferências eram semelhantes.
Palavra dentro da qual estou há milhões
de anos é arvore.
Pedra também.
Eu tenho precedências para pedra.
Pássaro também.
Não posso ver nenhuma dessas palavras que
não leve um susto.
Andarilho também.
Não posso ver a palavra andarilho que
eu não tenha vontade de dormir debaixo
de uma árvore.
Que eu não tenha vontade de olhar com
espanto, de novo, aquele homem do saco
a passar como um rei de andrajos nos
arruados de minha aldeia.
E tem mais uma: as andorinhas,
pelo que sei, consideram os andarilhos
como árvore.
Enfim, o poeta-avô bateu asas e avoou. Virou passarinho (como ele mesmo disse de Bernardo). À menina avoada, restou todo amor. E, dos três inventos do velhinho, teve um que ela mais se afeiçoou: o fazedor de amanhecer.
O FAZEDOR DE AMANHECER (Manoel de Barros)
Sou leso em tratagens com máquina.
Tenho desapetite para inventar coisas
prestáveis.
Em toda a minha vida só engenhei
3 máquinas
Como sejam:
Uma pequena manivela para pegar no sono
Um fazedor de amanhecer
para usamentos de poetas
E um platinado de mandioca para o
fordeco de meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias
automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria
das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo.
E a glória entronizou-se para sempre
em minha existência.
Bom, sono ela já tem demais, e o platinado foi para o irmão dele, tantos anos atrás... Então foi o fazedor de amanhecer, com um autógrafo, que sua netinha-faz-de-conta pegou. Só que depois, numa forte chuva, ele molhou... as páginas enrugadas, as letras interrompidas, mas ele nela continua vivo, e tudo continua dito.
Se Manoel em alguma energia puder ler essa meia-narrativa, agora assim eu a terminaria:
vô, sou grata.
*poemas retirados dos livros "O fazedor de amanhecer", "Exercícios de ser criança", "Ensaios fotográficos - 2ª parte" e "Poesia completa (2013)"
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
Fantasma de mim
Estou exatamente diante das sombras que fizeram de mim.
Ou de luzes refletidas, como queirais chamar,
Mas a mim parece mais coisa daquelas
de assustar
Cansada de projeções, "homenagens", obrigadas
Não preciso de alguém pra me reinventar
Não preciso, nem mesmo pretendo
ser O brilho em vosso olhar
ser a Lua ou qualquer inanimado
com movimentos por vós guiados.
Duvido que se eu engordasse
Mudasse a cor ou o rosto, os padrões
ditados pela elite europeia
Tanto homem falaria em paixões
Não, tudo o que fazeis de mim
É só um quadro, retrato pensado
Pois o ser humano que vive por aqui
Luta por mais que vosso sexual agrado
O ser humano que vive por aqui
Caminha, menstrua, fala, se joga, encerra.
Carrega, pro resto da vida, sua própria história
Independente de romances de novela
O ser humano que vive por aqui
Pode ser viado, assexual, sapatão
Mas aquele fantasma, senhores, que em vossos sonhos diz sim
na realidade sou a mulher, estuprada, culpada, silenciada
quando digo chega! quando digo não.
Ou de luzes refletidas, como queirais chamar,
Mas a mim parece mais coisa daquelas
de assustar
Cansada de projeções, "homenagens", obrigadas
Não preciso de alguém pra me reinventar
Não preciso, nem mesmo pretendo
ser O brilho em vosso olhar
ser a Lua ou qualquer inanimado
com movimentos por vós guiados.
Duvido que se eu engordasse
Mudasse a cor ou o rosto, os padrões
ditados pela elite europeia
Tanto homem falaria em paixões
Não, tudo o que fazeis de mim
É só um quadro, retrato pensado
Pois o ser humano que vive por aqui
Luta por mais que vosso sexual agrado
O ser humano que vive por aqui
Caminha, menstrua, fala, se joga, encerra.
Carrega, pro resto da vida, sua própria história
Independente de romances de novela
O ser humano que vive por aqui
Pode ser viado, assexual, sapatão
Mas aquele fantasma, senhores, que em vossos sonhos diz sim
na realidade sou a mulher, estuprada, culpada, silenciada
quando digo chega! quando digo não.
quarta-feira, 12 de novembro de 2014
Decantando o sangue
É pouco saber que foram muitos.
É muito saber se fomos tanto.
Somos quantos?
Tão poucos encontros
se circulamos nos mesmos cantos...
somos muitos? Ou nos vamos tanto?
Seria pouco te ver e dizer tudo
De tanto, não adiantaria nada.
Somos poucos, quando mudos
"Não mudo!", você diz: "Calada".
Para! Por favor, meu sinhô, não me amarra...
Pouco fomos? Quantos foram? Quem escapa?
É demais doer em tantos nomes
É de luto morrer aos tantos montes
Fomos raros, com certeza, fomos muito
pra você, insignificantes.
É muito saber se fomos tanto.
Somos quantos?
Tão poucos encontros
se circulamos nos mesmos cantos...
somos muitos? Ou nos vamos tanto?
Seria pouco te ver e dizer tudo
De tanto, não adiantaria nada.
Somos poucos, quando mudos
"Não mudo!", você diz: "Calada".
Para! Por favor, meu sinhô, não me amarra...
Pouco fomos? Quantos foram? Quem escapa?
É demais doer em tantos nomes
É de luto morrer aos tantos montes
Fomos raros, com certeza, fomos muito
pra você, insignificantes.
terça-feira, 30 de setembro de 2014
De A-V
Tem a ver com olhos, narizes, bocas, mãos
Com tua, tão nossa, visão
Tem a ver com cheiros, gostos, gozos, suor
Tem a ver com sons
Tens, a ver, bem à tua frente
a vida, exuberante
e miserável dessa gente
Vê, e sente.
Todo o sentido
Tudo
a ver
Mas nem sempre.
Na maioria das vezes, não.
É nada, é só confusão.
E a poesia que é, se-não?
Com o que tem a ver, por quê?
É arte? Transformação?
É o que pode
E o que não pode ser.
Talvez, por isso mesmo tem tanto a ver
Por isso nós mesmos temos que ver
É mesmo isso,
Poesia
tem que haver
Com tua, tão nossa, visão
Tem a ver com cheiros, gostos, gozos, suor
Tem a ver com sons
Tens, a ver, bem à tua frente
a vida, exuberante
e miserável dessa gente
Vê, e sente.
Todo o sentido
Tudo
a ver
Mas nem sempre.
Na maioria das vezes, não.
É nada, é só confusão.
E a poesia que é, se-não?
Com o que tem a ver, por quê?
É arte? Transformação?
É o que pode
E o que não pode ser.
Talvez, por isso mesmo tem tanto a ver
Por isso nós mesmos temos que ver
É mesmo isso,
Poesia
tem que haver
domingo, 20 de julho de 2014
Morre, nasce trigo. Vive e morre pão.
A lucidez é inebriante, encantadora, apaixonante...mais que mil juras,
mais que a eternidade.. os próximos minutos serão enquanto durarem.
(inspirada ouvindo Drão, de Gilberto Gil)
(inspirada ouvindo Drão, de Gilberto Gil)
Rubem Alves: 1933-2014
“Sou grato pela minha vida. Não terei últimas palavras a dizer. As que
tinha para dizer, disse durante a minha vida. Recebi Muito. Fui muito
amado. Tive muitos amigos. Plantei árvores, fiz jardins. Construí
fontes, escrevi livros. Tive filhos, viajei, experimentei a beleza,
lutei pelos meus sonhos. Que mais pode um homem desejar? Procurei fazer
aquilo que meu coração pedia.”
"...e não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses".
"A poesia é uma busca da Palavra essencial, a mais profunda, aquela da qual nasce o universo. Eu acho que Deus, ao criar o universo, pensava numa única palavra: Jardim! Jardim é a imagem de beleza, harmonia, amor, felicidade. Se me fosse dado dizer uma última palavra, uma única palavra, Jardim seria a palavra que eu diria.
Depois de uma longa espera consegui, finalmente, plantar o meu jardim. Tive de esperar muito tempo porque jardins precisam de terra para existir. Mas a terra eu não tinha. De meu, eu só tinha o sonho. Sei que é nos sonhos que os jardins existem, antes de existirem do lado de fora. Um jardim é um sonho que virou realidade, revelação de nossa verdade interior escondida, a alma nua se oferecendo ao deleite dos outros, sem vergonha alguma… Mas os sonhos, sendo coisas belas, são coisas fracas. Sozinhos, eles nada podem fazer: pássaros sem asas… São como as canções, que nada são até que alguém as cante; como as sementes, dentro dos pacotinhos, à espera de alguém que as liberte e as plante na terra. Os sonhos viviam dentro de mim. Eram posse minha. Mas a terra não me pertencia.
O terreno ficava ao lado da minha casa, apertada, sem espaço, entre muros. Era baldio, cheio de lixo, mato, espinhos, garrafas quebradas, latas enferrujadas, lugar onde moravam assustadoras ratazanas que, vez por outra, nos visitavam. Quando o sonho apertava eu encostava a escada no muro e ficava espiando.
Eu não acreditava que meu sonho pudesse ser realizado. E até andei procurando uma outra casa para onde me mudar, pois constava que outros tinham planos diferentes para aquele terreno onde viviam os meus sonhos. E se o sonho dos outros se realizasse, eu ficaria como pássaro engaiolado, espremido entre dois muros, condenado à infelicidade.
Mas um dia o inesperado aconteceu. O terreno ficou meu. O meu sonho fez amor com a terra e o jardim nasceu.
Não chamei paisagista. Paisagistas são especialistas em jardins bonitos. Mas não era isto que eu queria. Queria um jardim que falasse. Pois você não sabe que os jardins falam? Quem diz isto é o Guimarães Rosa: “São muitos e milhões de jardins, e todos os jardins se falam. Os pássaros dos ventos do céu – constantes trazem recados. Você ainda não sabe. Sempre à beira do mais belo. Este é o Jardim da Evanira. Pode haver, no mesmo agora, outro, um grande jardim com meninas. Onde uma Meninazinha, banguelinha, brinca de se fazer Fada… Um dia você terá saudades… Vocês, então, saberão…” É preciso ter saudades para saber. Somente quem tem saudades entende os recados dos jardins. Não chamei um paisagista porque, por competente que fosse, ele não podia ouvir os recados que eu ouvia. As saudades dele não eram as saudades minhas. Até que ele poderia fazer um jardim mais bonito que o meu. Paisagistas são especialistas em estética: tomam as cores e as formas e constróem cenários com as plantas no espaço exterior. A natureza revela então a sua exuberância num desperdício que transborda em variações que não se esgotam nunca, em perfumes que penetram o corpo por canais invisíveis, em ruídos de fontes ou folhas… O jardim é um agrado no corpo. Nele a natureza se revela amante… E como é bom!
Mas não era bem isto que eu queria. Queria o jardim dos meus sonhos, aquele que existia dentro de mim como saudade. O que eu buscava não era a estética dos espaços de fora; era a poética dos espaços de dentro. Eu queria fazer ressuscitar o encanto de jardins passados, de felicidades perdidas, de alegrias já idas. Em busca do tempo perdido… Uma pessoa, comentando este meu jeito de ser, escreveu: “Coitado do Rubem! Ficou melancólico. Dele não mais se pode esperar coisa alguma…” Não entendeu. Pois melancolia é justamente o oposto: ficar chorando as alegrias perdidas, num luto permanente, sem a esperança de que elas possam ser de novo criadas. Aceitar como palavra final o veredicto da realidade, do terreno baldio, do deserto. Saudade é a dor que se sente quando se percebe a distância que existe entre o sonho e a realidade. Mais do que isto: é compreender que a felicidade só voltará quando a realidade for transformada pelo sonho, quando o sonho se transformar em realidade. Entendem agora por que um paisagista seria inútil? Para fazer o meu jardim ele teria que ser capaz de sonhar os meus sonhos…
Sonho com um jardim. Todos sonham com um jardim. Em cada corpo, um Paraíso que espera… Nada me horroriza mais que os filmes de ficção científica onde a vida acontece em meio aos metais, à eletrônica, nas naves espaciais que navegam pelos espaços siderais vazios… E fico a me perguntar sobre a perturbação que levou aqueles homens a abandonar as florestas, as fontes, os campos, as praias, as montanhas… Com certeza um demônio qualquer fez com que se esquecessem dos sonhos fundamentais da humanidade. Com certeza seu mundo interior ficou também metálico, eletrônico, sideral e vazio… E com isto, a esperança do Paraíso se perdeu. Pois, como o disse o místico medieval Angelus Silésius: Se, no teu centro um Paraíso não puderes encontrar, não existe chance alguma de, algum dia, nele entrar.
Este pequeno poema de Cecília Meireles me encanta, é o resumo de uma cosmologia, uma teologia condensada, a revelação do nosso lugar e do nosso destino:
“No mistério do Sem-Fim,
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro:
no canteiro, uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de urna borboleta.”
Metáfora: somos a borboleta. Nosso mundo, destino, um jardim. Resumo de uma utopia. Programa para uma política. Pois política é isto: a arte da jardinagem aplicada ao mundo inteiro. Todo político deveria ser jardineiro. Ou, quem sabe, o contrário: todo jardineiro deveria ser político. Pois existe apenas um programa político digno de consideração. E ele pode ser resumido nas palavras de Bachelard: “O universo tem, para além de todas as misérias, um destino de felicidade. O homem deve reencontrar o Paraíso”."
Texto extraído do site de Rubem Alves.
Sobre jardins e borboletas:
"Todo jardim começa com uma história de amor, antes que qualquer árvore seja plantada ou um lago construído é preciso que eles tenham nascido dentro da alma. Quem não planta jardim por dentro, não planta jardins por fora e nem passeia por eles…"
"...e não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses".
"A poesia é uma busca da Palavra essencial, a mais profunda, aquela da qual nasce o universo. Eu acho que Deus, ao criar o universo, pensava numa única palavra: Jardim! Jardim é a imagem de beleza, harmonia, amor, felicidade. Se me fosse dado dizer uma última palavra, uma única palavra, Jardim seria a palavra que eu diria.
Depois de uma longa espera consegui, finalmente, plantar o meu jardim. Tive de esperar muito tempo porque jardins precisam de terra para existir. Mas a terra eu não tinha. De meu, eu só tinha o sonho. Sei que é nos sonhos que os jardins existem, antes de existirem do lado de fora. Um jardim é um sonho que virou realidade, revelação de nossa verdade interior escondida, a alma nua se oferecendo ao deleite dos outros, sem vergonha alguma… Mas os sonhos, sendo coisas belas, são coisas fracas. Sozinhos, eles nada podem fazer: pássaros sem asas… São como as canções, que nada são até que alguém as cante; como as sementes, dentro dos pacotinhos, à espera de alguém que as liberte e as plante na terra. Os sonhos viviam dentro de mim. Eram posse minha. Mas a terra não me pertencia.
O terreno ficava ao lado da minha casa, apertada, sem espaço, entre muros. Era baldio, cheio de lixo, mato, espinhos, garrafas quebradas, latas enferrujadas, lugar onde moravam assustadoras ratazanas que, vez por outra, nos visitavam. Quando o sonho apertava eu encostava a escada no muro e ficava espiando.
Eu não acreditava que meu sonho pudesse ser realizado. E até andei procurando uma outra casa para onde me mudar, pois constava que outros tinham planos diferentes para aquele terreno onde viviam os meus sonhos. E se o sonho dos outros se realizasse, eu ficaria como pássaro engaiolado, espremido entre dois muros, condenado à infelicidade.
Mas um dia o inesperado aconteceu. O terreno ficou meu. O meu sonho fez amor com a terra e o jardim nasceu.
Não chamei paisagista. Paisagistas são especialistas em jardins bonitos. Mas não era isto que eu queria. Queria um jardim que falasse. Pois você não sabe que os jardins falam? Quem diz isto é o Guimarães Rosa: “São muitos e milhões de jardins, e todos os jardins se falam. Os pássaros dos ventos do céu – constantes trazem recados. Você ainda não sabe. Sempre à beira do mais belo. Este é o Jardim da Evanira. Pode haver, no mesmo agora, outro, um grande jardim com meninas. Onde uma Meninazinha, banguelinha, brinca de se fazer Fada… Um dia você terá saudades… Vocês, então, saberão…” É preciso ter saudades para saber. Somente quem tem saudades entende os recados dos jardins. Não chamei um paisagista porque, por competente que fosse, ele não podia ouvir os recados que eu ouvia. As saudades dele não eram as saudades minhas. Até que ele poderia fazer um jardim mais bonito que o meu. Paisagistas são especialistas em estética: tomam as cores e as formas e constróem cenários com as plantas no espaço exterior. A natureza revela então a sua exuberância num desperdício que transborda em variações que não se esgotam nunca, em perfumes que penetram o corpo por canais invisíveis, em ruídos de fontes ou folhas… O jardim é um agrado no corpo. Nele a natureza se revela amante… E como é bom!
Mas não era bem isto que eu queria. Queria o jardim dos meus sonhos, aquele que existia dentro de mim como saudade. O que eu buscava não era a estética dos espaços de fora; era a poética dos espaços de dentro. Eu queria fazer ressuscitar o encanto de jardins passados, de felicidades perdidas, de alegrias já idas. Em busca do tempo perdido… Uma pessoa, comentando este meu jeito de ser, escreveu: “Coitado do Rubem! Ficou melancólico. Dele não mais se pode esperar coisa alguma…” Não entendeu. Pois melancolia é justamente o oposto: ficar chorando as alegrias perdidas, num luto permanente, sem a esperança de que elas possam ser de novo criadas. Aceitar como palavra final o veredicto da realidade, do terreno baldio, do deserto. Saudade é a dor que se sente quando se percebe a distância que existe entre o sonho e a realidade. Mais do que isto: é compreender que a felicidade só voltará quando a realidade for transformada pelo sonho, quando o sonho se transformar em realidade. Entendem agora por que um paisagista seria inútil? Para fazer o meu jardim ele teria que ser capaz de sonhar os meus sonhos…
Sonho com um jardim. Todos sonham com um jardim. Em cada corpo, um Paraíso que espera… Nada me horroriza mais que os filmes de ficção científica onde a vida acontece em meio aos metais, à eletrônica, nas naves espaciais que navegam pelos espaços siderais vazios… E fico a me perguntar sobre a perturbação que levou aqueles homens a abandonar as florestas, as fontes, os campos, as praias, as montanhas… Com certeza um demônio qualquer fez com que se esquecessem dos sonhos fundamentais da humanidade. Com certeza seu mundo interior ficou também metálico, eletrônico, sideral e vazio… E com isto, a esperança do Paraíso se perdeu. Pois, como o disse o místico medieval Angelus Silésius: Se, no teu centro um Paraíso não puderes encontrar, não existe chance alguma de, algum dia, nele entrar.
Este pequeno poema de Cecília Meireles me encanta, é o resumo de uma cosmologia, uma teologia condensada, a revelação do nosso lugar e do nosso destino:
“No mistério do Sem-Fim,
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro:
no canteiro, uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de urna borboleta.”
Metáfora: somos a borboleta. Nosso mundo, destino, um jardim. Resumo de uma utopia. Programa para uma política. Pois política é isto: a arte da jardinagem aplicada ao mundo inteiro. Todo político deveria ser jardineiro. Ou, quem sabe, o contrário: todo jardineiro deveria ser político. Pois existe apenas um programa político digno de consideração. E ele pode ser resumido nas palavras de Bachelard: “O universo tem, para além de todas as misérias, um destino de felicidade. O homem deve reencontrar o Paraíso”."
Texto extraído do site de Rubem Alves.
Livramar
Não é apenas utopia, não é só sobre sentimentos. Não tem somente a ver com uns, ou outros... É sobre todxs, sobre sociedade, sobre opressões. É sobre tomar parte na construção de algo que nunca vai precisar ficar pronto...
E sem dar acabamento, e sendo parte e protagonistas, olhamos nossas mãos operárias e percebemos: essa obra não devia mais ser mistificada, nem reduzida.
Sim, e ainda é sobre utopia, sentimentos, poesia. Também.
E sem dar acabamento, e sendo parte e protagonistas, olhamos nossas mãos operárias e percebemos: essa obra não devia mais ser mistificada, nem reduzida.
Sim, e ainda é sobre utopia, sentimentos, poesia. Também.
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