terça-feira, 22 de setembro de 2015

Amor-À-Nat


É como esse brilho fosco
do Sol que não esquenta
É quando
nada mais entra
dentro de um corpo
chorando de cólicas.

É nosso útero, irmã,
Que revira
Que avisa
Nos avista
por dentro
E põe pra fora toda a violência
que já recebemos
sem conseguir dar em troca

Você está certa
Porque dói.
E eu não sou completa
Nem tenho melhor palavra
pra te consolar.
Mas estou aqui, aberta
Esperando quase a mesma chuva salgada
terminar de nos encharcar

Iremos nos juntar na
mesma terra.
E até lá
Todos os defeitos, todos os egos
poderão nos afastar...

Mas cante comigo, minha amiga!
Em prantos!
Deixe seu sangue vazar

Dá saudade seus olhos fortes,
doces, querida
que mostram uma alma
feminina, contorcida
mirando bem fundo
no suspiro do meu lar

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Histórias curam

Hoje sonhei com um querido amigo, que, irônico e gay, olhava o meu corpo (que estava diferente) e dizia: "Nossa, esse corpo de mulher, farto... quantas histórias, quantas curvas... sai daqui!"

É, é apropriado que a Mulher Selvagem/ Mulher-borboleta seja velha e corpulenta, pois ela traz o mundo dos trovões num seio, e o mundo subterrâneo no outro. Suas costas são a curva do planeta Terra com todos os seus frutos, alimentos e animais. Na sua nuca, ela traz o sol nascente e poente. Sua coxa esquerda guarda todos os pinheiros; sua coxa direita, todas as lobas do mundo. Em seu ventre estão todos os bebês que um dia ainda irão nascer.
Uma vez sonhei que estava contando histórias e sentia alguém dando tapinhas no meu pé para me incentivar. Olhei para baixo e vi que estava em pé nos ombros de uma velha que segurava meus tornozelos e sorria para mim. "Não, não" disse-lhe eu. "Venha subir nos meus ombros, já que a senhora é velha e eu sou nova." "Nada disso" insistiu ela. "É assim que deve ser". -  Trechos de Mulheres que correm com os lobos

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Limpa


Mofo - nada de novo
Medo - caveira com cabelo
Fora - vamos jogar!
Deixar pra trás, ou passar
pra frente esse lixo
que alguém vai revirar

Amanhece rua suja
O caminhão que tritura
Aqueles fios de 5 anos atrás
Aquele rosto do galã
que nem sei se existe mais...

Se é limpeza, pode ser meia
O cheiro não sai por completo
Deixei acumular demais...
Não sei como fui capaz

Agora, esqueça.
já perdi
são pedaços mortos
que à terra podem servir

Mas eu volto,
e dou de cara na porta
Meu autoboicote, que diz:
- você não mora mais aqui.

Dormindo ao relento
Rede.
Vento.

Ainda bem que trouxe
Laranjas.
Ainda são minha cor
preferida

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Carta aberta a você

Por Nina Oliveira

"Cuidarei de você.
Mas não quero te tornes dependente.
Amarei você.
Mas não quero que te sintas aprisionado.
Ensinarei você.
Mas não quero que te sintas em dívida.
Prefiro que te sintas grato.

Sei do teu encantamento e da tua admiração, mas não quero que me imagines um ser humano perfeito. Tampouco desejo me utilizar do poder que me atribuis em prol da minha existência.
Quero te ver um ser independente. Um ser capaz de reconstruir-se a partir da própria matéria quando quem amas vai embora. Eu digo isso, porque sei que cada um daqueles que amamos é um pedacinho da gente. E por motivos, que surgem de uma sacola mágica de motivos, essas pessoas saem da nossa vida. Cedo, ou tarde. Quando elas se vão, é necessário reconstruir a parte que elas levam consigo. É preciso fazer brotar braço onde havia braço, pé onde havia pé, pulmão onde havia pulmão. É preciso fazer isso com calma, é um processo doído, mas é uma dor necessária, portanto, nada de anestesia na reconstrução!

Assim como as alegrias, as dores são necessárias. Ainda assim, não desejo que meu amor seja mais uma dor.

Que meu amor te liberte.
Que te acolha.
E te dê escolha.
Que você fique enquanto puder e quiser.
Eu ficarei enquanto puder e quiser.
E se um dia, um de nós for, que o outro saiba se reconstruir."

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Orgânica


Os fluidos têm insistido
em escorrer pra fora de mim

Insistem eles em se mostrar presentes
Estarem cores, textura, explícitas e aparentes
Manchando e molhando tudo
ao contato com minha pele.
Tudo, inclusive todos
que aceitarem tocar e enxergar
a mulher "suja", gosmenta, no cio
Chorando de amar
Se virando do avesso pra se autoabraçar
Transformando seu esqueleto
Em alguma
coisa.

Que voa.

Os fluidos enredarão meu casulo
de borboleta?


~~~versão 2


Orgânica

Fluidos vão insistindo
em escorrer de mim
Desejam eles
mostrar-se presentes
Estarem cor e
textura aparentes
Manchando tudo
que se aproximar

Alguns não vão enxergar
Além de minha sujeira
Meu choro é amor fluido
molhando a pele gosmenta

Aqui, viro do avesso
Para meu auto-abraço
Transformo meu esqueleto
Em algo mais escasso

que voa.

Fluidos enredam um casulo
de borboleta - ou de pessoa?

domingo, 31 de maio de 2015

Eu sou como as outras

Se é pra se definir, mulher, com um homem no centro e às custas de colocar outras mulheres à margem, que seja feito o manifesto: nem puta, nem submissa, nem traidora, nem traída, nem coadjuvante, nem estrela principal, nem sua escrava, nem sua sinhá. Carregamos esses fardos em todas, pra destruí-los e um dia se livrar - Eu sou como as outras.


Manifesto eu sou como as outras

(1) “Você não é ‘como as outras’”: esta frase foi internalizada em nossa socialização como um elogio; uma necessidade afirmativa de se diferenciar de outras mulheres. Mas o que esta frase revela?;
(2) Primeiro, é importante pensar: quem são ‘as outras’? As outras são todas as outras mulheres, que aprendemos a não identificar, como diz Simone de Beauvoir, como “seres humanos”;
(3) Não ser como as outras seria a possibilidade de ser reconhecida como um ser humano. E não como essa “mulher não humana”, cujas substâncias constitutivas seriam: "dissimulação, loucura, promiscuidade, burrice";
(4) Para sustentar essa identidade negativa da mulher, que nos é apresentada desde a infância, muitas mulheres com trabalhos relevantes são apagadas da história da política, filosofia, arte. De modo que acabamos reservando a admiração para os homens, que nos são apresentados como “grandes realizadores”;
(5) Aprendemos que homens devem ser admirados e que devemos nos diferenciar das mulheres;
(6) Mas quais são os impactos da manutenção deste pensamento tão naturalizado? Inicialmente, o não reconhecimento das vivências comuns de opressão entre mulheres, o que fragmenta, enfraquece e silencia nossas vozes. Dificulta a construção de uma representação com a qual tenhamos orgulho de nos identificar. Mantém a humanidade das mulheres nas mãos de homens, que decidem quem é ou não “como as outras”. É um pilar da dominação de gênero;
(7) E se quebrássemos este ciclo? Admirando também as mulheres em nossas áreas de atuação profissional, em nossa família, em nossos círculos sociais, nos aproximando de outras mulheres e percebendo nossas vivências comuns e nos afirmando também pela igualdade: eu sou como as outras;
(8) O primeiro passo é recusar a identidade negativa e desumana da mulher, que nos é apresentada/imposta;
(9) O feminismo “de internet” ajuda neste construção de identidades positivas. Não olhamos mais para as capas de revistas, mas para os nossos selfies. Não lemos mais como “agradar seu homem”, mas como nos empoderar.

Não precisamos de ninguém para falar por nós: seja através de memes, de relatos de vivência de opressão ou de leituras acadêmicas feministas, estamos encontrando nossas próprias narrativas. E construindo a nossa representação em nós mesmas e nas outras mulheres.

Sou como Simone, Frida, Audre, Angela, Assata, Emma, Rosa, Brunna, Daniela, Marina, Lu. Sou como todas as outras.

domingo, 17 de maio de 2015

novaidade


essepê
esse ipê
esse morro
esse som de pernambuco
meu ouvido já caduco
minha boca ainda mole
ainda mal sussura no que acredita
ainda engole...

senhorita, moça
flor, amor,
qualquer palavra tosca
entra em rima
entra em riso
não sublima
pois não é preciso
porque é só de saber
e apenas já tocou
e pra manifestar vaza nova em tudo junto:
timbre, textura, odor-sabor...
coisa estranha e simples essa vida,
quanto tanto já passou! (e não foi nada)
quanto desse nada que vez em quando não passa!
pois cai no lago medroso do "se repete"
e nos faz querer fugir, como se fosse monstruoso isso
que na verdade é só ciclo (e nos inverte)
transmutantes, seguimos em espiral
que encantemos mesmo, tudo isso
nunca será igual
ao mesmo tempo sempre parecerá
o amor
tão banal
mas seja, ora, dê a língua!
que nem quando a criança birra
em se mostrar indecente, inteligente
sendo boba em encontrar novos utilitários
pra tudo que já foi catalogado
como existente.

e é assim
que inventamos novas brincadeiras pras cidades rivais
que usamos palavras parecidas pra descobrir
como desfazer nós, distância entre os locais
como chegar e ir
e cheirar e rir
cada vez mais lindo, mais cheio, mais último e primeiro...
cada vez, como nunca mais

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Anjos Mulheres - VI

Por Maria Teresa Horta


As mulheres voam
como os anjos
Com as suas asas feitas
de cristal de rocha da memória

Disponiveis
para voar

soltas...

Primeiro
lentamente uma por uma

Depois,
iguais aos pássaros

fundas...

Nadando,
juntas

Secreta a rasar o
chão

a rasar a fenda
da lua

no menstruo
por entre a fenda das pernas

Às vezes é o aço
que se prende
na luz

A dobrarmos o espaço?

Bruxas
pomos asas em vassouras
de vento

E voamos

Como as asas
lhe cresciam nas coxas

diziam dela
que era um anjo do mar

Rondo alto,
postas em nudez de ombros
e pernas

perseguindo,

pelos espaços,
lunares
da menstruação

e corpo desavindo

Não somos violência
mas o voo

quando nadamos
de costas pelo vento

até à foz do tempo
no oceano denso
da nossa própria voz

Sabemos distinguir
a dormir
os anjos das rosas voadoras

pelo tacto?

Somos os anjos
do destino

com a alma
pelo avesso
do útero

Voamos a lua
menstruadas

Os homens gritam
- são as bruxas

As mulheres pensam
- são os anjos

As crianças dizem
- são as fadas

Fadas?

filigrama cintilante
de asas volteando
no fundo da vagina

Nadamos?

De costas,
no espaço deste século

Mudar o rumo
e as pernas mais ao
fundo

portas por trás
dobradas pelos rins

Abrindo o ar
com o corpo num só golpe

Soltas,
voando
até chegar ao fim

Dizem-nos
que nos limitemos ao espaço

Mas nós voamos
também
debaixo de água

Nós somos os anjos
deste tempo

Astronautas,
voando na memória
nas galáxias do vento...

Temos um pacto
com aquilo que
voa

- as aves
da poesia

- os anjos
do sexo

- o orgasmo
dos sonhos

Não há nada
que a nossa voz não abra

Nós somos as bruxas da palavra.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Alma selvagem

Eu fui muito longe...passando batida por uma floresta. (Era floresta mesmo?)
Sei que há uma foz. Não sei muito sobre ela, pois seus vestígios são apenas líquidos que vazam por uma pequena fenda que se abriu em minhas veias. Eles gotejam: salgada lágrima, ferroso sangue, agridoce gozo. Mas pra onde eles vão? Cadê o curso desse rio? O vazamento só aparece em alguns momentos, mais frequentes ultimamente. Pode ser ao ouvir o gemido da sanfona em Cajuína, ou o timbre perfeito das vozes em coro dos doces bárbaros. Pode ser ao ver o Sol correndo atrás das árvores enquanto o ônibus se movimenta, pode ser o olhar fundo numa íris marrom cintilante. Poderia ser a cada segundo, por cada buraco, cada pequeno poro, mas o corpo arma barreiras de contenção pra que ninguém perceba minha alma chorando. Sim, é ela que diz: "Você foi muito longe. Venha logo me abraçar". Ela me chama de volta à floresta, e dessa vez eu quero parar lá. Aqui. E ao resto do mundo que tanto reclama, só posso ter mais a dar quando todo esse ciclo das águas for curado, e a foz puder jorrar.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Genuínos

Do que mais pele tem na flor?
Do que mais reto tem nas asas?
Nos seus instantes, nem a cor
lhe sobra, nada

É só suspiro, inalação
do seu ardor, é só vapor
Eu viro água.

Ao mesmo tempo, é presença
É carnal na totalidade
imensa, profunda, e sem peso
Somos só, e tanto
 infinidade

Abro os poros, enchamo
Te chamo, te amo
mas saem urros, gemidos
e entram mais.
Cai a luz.
Genuínos animais

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

L

a lua que é de lua
não tem hora certa pra mudar
de fase
não precisa de sol ou planetas
que cubram/descubram suas metades
ela circula na imensidão negra
- ao encontro de certas gravidades
que sangram, giram, dançam, gozam
enquanto eles pensam ser só amizade

no coito de crateras
no amor entre duas esferas

as luas são de luas
e ainda amanhecerão nuas
nem que o dia as apague

sábado, 27 de dezembro de 2014

Presente

Antigamente, até a virada do século, aquele senhor dando autógrafos podia ter todos os netinhos do mundo. Era só sorrir a uma criança e falar: "Faz de conta que eu sou seu vô". E ele eras.

ERAS (Manoel de Barros)
Antes a gente falava: faz de conta que
este sapo é pedra.
E o sapo eras.
Faz de conta que o menino é um tatu
E o menino eras um tatu.
A gente agora parou de fazer comunhão de
pessoas com bicho, de entes com coisas.
A gente hoje faz imagens.
Tipo assim:
Encostado na Porta da Tarde estava um
caramujo.
Estavas um caramujo – disse o menino
Porque a Tarde é oca e não pode ter porta.
A porta eras.
Então é tudo faz de conta como antes?

Uma das netinhas eras fada, escorregava no arco-íris, viajava pelos planetas desvendando mistérios e tinha um cavalo alado, dentre outras coisas. Teve até um dia que aprendeu a dirigir submarinos e seu pai eras subtaxista. Fazia de conta que a rede eras sua canoa, e os cachorros; tubarões. "Cada um com seu cada um", ela diria; e ele completaria: "Quem não tem ferramentas de pensar, inventa."

A MENINA AVOADA (Manoel de Barros)
Foi na fazenda de meu pai antigamente.
Eu teria dois anos; meu irmão, nove.
Meu irmão pregava no caixote duas rodas de lata de
goiabada.
A gente ia viajar.
As rodas ficavam cambaias debaixo do caixote:
Uma olhava para a outra.
Na hora de caminhar as rodas se abriam para o lado
de fora.
De forma que o carro se arrastava no chão.
Eu ia pousada dentro do caixote com as perninhas
encolhidas.
Imitava estar viajando.
Meu irmão puxava o caixote por uma corda de embira.
Mas o carro era diz-que puxado por dois bois.
Eu comandava os bois:
— Puxa, Maravilha!
— Avança, Redomão!
Meu irmão falava que eu tomasse cuidado porque
Redomão era coiceiro.
As cigarras derretiam a tarde com seus cantos.
Meu irmão desejava alcançar logo a cidade —
Porque ele tinha uma namorada lá.
A namorada do meu irmão dava febre no corpo dele.
Isso ele contava.
No caminho, antes, a gente precisava de atravessar um
rio inventado.
Na travessia o carro afundou e os bois morreram afogados.
Eu não morri porque o rio era inventado.
Sempre a gente só chegava no fim do quintal.
E meu irmão nunca via a namorada dele —
Que diz-que dava febre em seu corpo.

A diferença é que ela não sabia como era ter irmão. Mas logo depois saberia, por ironia ou não.

O tempo passou, o avô faz-de-conta e a menina nunca mais se viram. Mas ainda havia algo de comum naquele mesmo gosto por palavras. Naquele estranho prazer em retorcer as letras, subvertê-las e poder dizer então que é possível mudar tudo isso que aí está. Que, afinal de contas, podemos voar. Enfim, ela redescobriu: olha lá! Os versos que sua amiga recitou eram daquele seu antigo avô!

APANHADOR DE DESPERDÍCIOS (Manoel de Barros)
Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Ela gostava de escrever, mas não queria mais ser o que optou quando cresceu. Queria ouvir, mais do que falar. Pois "só o silêncio faz rumor no voo das borboletas". Queria se metamorfosear.

BORBOLETAS (Manoel de Barros)
Borboletas me convidaram a elas.
O privilégio insetal de ser uma borboleta me atraiu.
Por certo eu iria ter uma visão diferente dos homens
e das coisas.
Eu imaginava que o mundo visto de uma borboleta 
—Seria, com certeza, um mundo livre aos poemas.
Daquele ponto de vista:
Vi que as árvores são mais competentes em auroras
do que os homens.
Vi que as tardes são mais aproveitadas pelas garças
do que pelos homens.
Vi que as águas têm mais qualidade para a paz do
que os homens.
Vi que as andorinhas sabem mais das chuvas do que
os cientistas.
Poderia narrar muitas coisas ainda que pude ver do
ponto de vista de uma borboleta.
Ali até o meu fascínio era azul.

E as palavras, como sempre, voltavam a lhes acompanhar. Até suas preferências eram semelhantes.

PALAVRAS (Manoel de Barros)
Palavra dentro da qual estou há milhões
de anos é arvore.
Pedra também.
Eu tenho precedências para pedra.
Pássaro também.
Não posso ver nenhuma dessas palavras que
não leve um susto.
Andarilho também.
Não posso ver a palavra andarilho que
eu não tenha vontade de dormir debaixo
de uma árvore.
Que eu não tenha vontade de olhar com
espanto, de novo, aquele homem do saco
a passar como um rei de andrajos nos
arruados de minha aldeia.
E tem mais uma: as andorinhas,
pelo que sei, consideram os andarilhos
como árvore.

Enfim, o poeta-avô bateu asas e avoou. Virou passarinho (como ele mesmo disse de Bernardo). À menina avoada, restou todo amor. E, dos três inventos do velhinho, teve um que ela mais se afeiçoou: o fazedor de amanhecer.


O FAZEDOR DE AMANHECER (Manoel de Barros)

Sou leso em tratagens com máquina.
Tenho desapetite para inventar coisas
prestáveis.
Em toda a minha vida só engenhei
3 máquinas
Como sejam:
Uma pequena manivela para pegar no sono
Um fazedor de amanhecer
para usamentos de poetas
E um platinado de mandioca para o
fordeco de meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias
automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria
das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo.
E a glória entronizou-se para sempre
em minha existência.

Bom, sono ela já tem demais, e o platinado foi para o irmão dele, tantos anos atrás... Então foi o fazedor de amanhecer, com um autógrafo, que sua netinha-faz-de-conta pegou. Só que depois, numa forte chuva, ele molhou... as páginas enrugadas, as letras interrompidas, mas ele nela continua vivo, e tudo continua dito.

Se Manoel em alguma energia puder ler essa meia-narrativa, agora assim eu a terminaria: 
vô, sou grata.



*poemas retirados dos livros "O fazedor de amanhecer", "Exercícios de ser criança", "Ensaios fotográficos - 2ª parte" e "Poesia completa (2013)"

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Fantasma de mim

Estou exatamente diante das sombras que fizeram de mim.
Ou de luzes refletidas, como queirais chamar,
Mas a mim parece mais coisa daquelas
de assustar

Cansada de projeções, "homenagens", obrigadas
Não preciso de alguém pra me reinventar
Não preciso, nem mesmo pretendo
ser O brilho em vosso olhar
ser a Lua ou qualquer inanimado
com movimentos por vós guiados.

Duvido que se eu engordasse
Mudasse a cor ou o rosto, os padrões
ditados pela elite europeia
Tanto homem falaria em paixões

Não, tudo o que fazeis de mim
É só um quadro, retrato pensado
Pois o ser humano que vive por aqui
Luta por mais que vosso sexual agrado

O ser humano que vive por aqui
Caminha, menstrua, fala, se joga, encerra.
Carrega, pro resto da vida, sua própria história
Independente de romances de novela

O ser humano que vive por aqui
Pode ser viado, assexual, sapatão
Mas aquele fantasma, senhores, que em vossos sonhos diz sim
na realidade sou a mulher, estuprada, culpada, silenciada
quando digo chega! quando digo não.